segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ministra da Cultura destaca importância de se respeitar a memória de NETO

JA - 19.09.2011
A ministra da Cultura, Dra. Rosa Cruz e Silva, afirmou ontem, em Mbanza Congo, que os progressos que se alcançam no domínio da economia devem estar associados às grandes questões que sustentam o desenvolvimento cultural.


Rosa Cruz e Silva, que discursava durante o acto central do Dia do Herói Nacional, ontem assinalado, sustentou que essa é uma das formas de respeitar a memória do primeiro Presidente de Angola, enquanto poeta e homem de cultura.

“Na senda do glorioso caminho da reconstrução nacional, torna-se necessário reconstruir a nossa memória histórica e cultural, dignificando-a, para prestigiar o legado dos nossos heróis e as figuras de relevo que tornaram possíveis as nossas conquistas”, defendeu. Falando em representação do Chefe de Estado, salientou que o actual momento revela um crescimento económico e social do país e melhorias significativas nas condições sociais da população. Essa proeza, acrescentou, significa que estão a ser cumpridos os ideais do fundador da nação.


Na sua perspectiva, o país precisa de criar, cada vez mais, espaços de debate sobre a herança cultural e política de Agostinho Neto, revivendo a sua memória e feitos e contribuindo para um conhecimento mais alargado do conjunto da sua imponente obra literária.


A ministra destacou ainda a importância histórica do Reino do Congo. Defendeu que a magnitude do simbolismo da região exige, com urgência, o reconhecimento de todos os angolanos, para a preservação das riquezas históricas inerentes ao seu amplo património cultural. Falando para várias centenas de pessoas presentes no Largo António Agostinho Neto, lembrou que Mbanza Congo, fundada antes mesmo da chegada dos portugueses, se reveste de grande importância, por até ao século XVI ter sido considerada a maior cidade da costa ocidental de África, abarcando o reino, na altura, o actual Congo-Brazzaville, República Democrática do Congo e Gabão.


“Nesse sentido, torna-se urgente preservar as riquezas históricas de Mbanza Congo, no âmbito do projecto ‘Mbanza Congo, cidade a desenterrar para preservá-la’. Não podemos esperar que outras pessoas conservem estes bens”, defendeu, acrescentando que o programa de restauro deve contar com o apoio dos próprios angolanos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Progresso de Angola destacado por Obama

JA-12 de Setembro de 2011

O Presidente norte-americano, Barack Obama, reconheceu na sexta-feira os progressos registados em Angola, desde que alcançou a paz, e felicitou o Chefe de Estado angolano pela presidência da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

"Nesta última década, Angola não apenas se recuperou da guerra civil devastadora, como igualmente desenvolveu uma economia que se posiciona de entre as maiores do continente africano", disse o Presidente norte-americano durante uma audiência que concedeu, na Casa Branca, ao embaixador angolano nos Estados Unidos, Alberto do Carmo Bento Ribeiro.
Na cerimónia, que serviu para o novo chefe da missão de Angola em Washington apresentar as suas cartas credenciais, Barack Obama referiu que a indicação do diplomata angolano acontece num momento crucial das relações bilaterais entre os dois Estados.
Uma nota da Embaixada de Angola nos Estados Unidos refere que, durante a cerimónia, o diplomata angolano realçou os dividendos da paz, a consolidação da reconciliação nacional que ocorre no nosso país.
Alberto do Carmo Bento Ribeiro destacou, igualmente, o reforço das instituições democráticas, no sentido de uma melhoria na defesa dos direitos humanos, na redução da pobreza, na boa governação e no combate à corrupção.
O embaixador falou, igualmente, dos progressos alcançados na cooperação bilateral entre os dois países, enfatizando a assinatura do Memorando para o Diálogo de Parceria Estratégica, em 2010, como um testemunho da importância da diplomacia e um instrumento que vem, cada vez mais, reforçar as boas relações já existentes. O diplomata angolano fez a apresentação das suas cartas figuradas, no dia 1 de Setembro de 2011, no Departamento de Estado.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Carnaval do Brasil ao ritmo do semba de Angola


JA - António Bequengue e Adriano de Melo - 8 de Setembro de 2011

Martinho da Vila disse ontem ao Jornal de Angola, que o seu grupo, na próxima edição do Carnaval do Rio de Janeiro, vai desfilar com um enredo sobre Angola, onde vai estar em destaque o casamento entre o semba e samba. O cantor e compositor brasileiro apresentou o projecto à ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva.

 Fotografia: Reuters

 Volta a Luanda no próximo mês a convite da União dos Escritores Angolanos para falar de música, poesia e literatura. Martinho da Vila anunciou que vai convidar alguns artistas e intelectuais angolanos para participarem no desfile da Unidos de Vila Isabel, inclusive o Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

Jornal de Angola - Qual foi o motivo da sua viagem a Luanda?

Martinho da Vila - Vim falar com a ministra da Cultura, Rosa da Cruz e Silva, para fazer uma explanação sobre o enredo que a escola de samba Unidos da Vila Isabel vai apresentar no próximo Carnaval, cujo título é "O Canto Livre de Angola". Para que sejamos bem sucedidos, o que será bom para os nossos países, é necessária a participação oficial e particular em termos de patrocínios. Um bom resultado deste projecto é importante para criar mais intercâmbio entre músicos angolanos e brasileiros.

JA - Que informações tem sobre a música angolana?

MV - Tenho muita informação, mas sei pouco sobre o momento actual. Os primeiros músicos angolanos que foram ao Brasil fui eu quem levou. Já trabalhei com extremos como o Bonga e o Dog Murras.

JA – Qual foi o seu percurso artístico?

MV – Actuei pela primeira vez num festival de música da TV Record, em 1967, o mesmo que revelou Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo e muitos outros. Falar da minha trajectória até hoje é impossível em poucas palavras.

JA - Escreve livros e compõe músicas nos mais variados ritmos. De onde vem o gosto pela diversidade?

MV - Gosto da diversidade mas não sei de onde vem o gosto. Acho perfeitamente normal um actor cantar, uma actriz representar, um sambista escrever livros, um erudito fazer música popular, um compositor pop criar uma ópera e todos fazerem outras coisas como pintar, esculpir, produzir, realizar filmes…

JA - Com a introdução de novos ritmos e novas tendências na música mundial, ainda há lugar para o samba de qualidade e de raiz no Brasil?

MV - Sambas de qualidade musical e poética continuam a ser produzidos no Brasil. Chico, João Bosco, Arlindo Cruz, Roque Ferreira, Nelson Rufino, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e alguns outros estão sempre a produzir bons trabalhos. O mais tradicional de todos é o Paulinho da Viola.

JA - O actual processo de produção e gravação influenciaram a sua carreira?

MV - Influenciar creio que não, mas eu sempre usei a tecnologia a meu favor.

JA - Sei que Martinho da Vila é um homem do Carnaval. Como classifica a sua participação nas escolas de samba?

MV - Há compositores de música popular que não são do Carnaval e autores de samba de enredo que não fazem outro tipo de música. Eu sou eclético. Muitos sambas enredos meus foram cantados em desfiles e a minha participação diversificada. Sou presidente de honra da Unidos de Vila Isabel mas, essencialmente, sou membro da Ala de Compositores.

JA - Como foi a sua experiência de actor, no filme "A Magia do Samba"?

MV - Não deixei a música para ser actor. A "Magia do Samba" é um filme inglês onde eu faço uma auto-representação e desenvolvi parte da banda sonora.

JA – Como tem sido a sua carreira fora do Brasil?

MV - Quem quiser viver de música tem de trabalhar com afinco e abraçar o profissionalismo, tanto no Brasil como em Angola. A minha carreira no Brasil e fora é muito activa. Este mês eu actuo em Salvador da Baía e no Rock in Rio. Dia 11 vou a Paris gravar com a cantora Nana Mouskouri. No início de Outubro canto em Portugal e Inglaterra. Há outras propostas internacionais em andamento.

JA - Os novos músicos têm cuidado com a Língua Portuguesa na elaboração das suas canções?

MV - Os compositores devem ter uma preocupação permanente com a Língua Portuguesa e aprimorar as suas letras. Os cantores, além de darem prioridade à poesia, devem procurar temas com riqueza melódica.

JA - As suas músicas ajudaram a mudar as mentalidades no Brasil?

MV - Não devo falar da importância da minha música. É dever dos estudiosos, críticos, pensadores.

JA – A Música Popular Brasileira ainda defende a modernização dentro do tradicionalismo?

MV - Sou visto como representante da Música Popular Brasileira, estivo muito abrangente que persiste e se expande. Procuro manter a essência da tradição, sem arcaísmo, mas evitando o modismo.

JA - Ainda é necessário defender o afro nas músicas, apesar da cada vez crescente globalização?

MV - Alguns dos meus antepassados foram africanos escravizados. Todo o mal tem algo de bom e a escravatura propiciou o sentimento de irmandade entre o povo brasileiro e o angolano. Os brasileiros oriundos de África foram muito importantes na construção do Brasil, influenciaram na cultura e em particular na música. O som afro faz parte da globalização.

JA - Qual é a sua opinião sobre os elos culturais entre os países lusófonos?

MV - A CPLP caminha a passos lentos, mas avança. O que mais pode unir os países lusófonos é a cultura artística e literária.

JA - É fácil viver da música no Brasil?

MV - Não é fácil viver de música em lugar algum, porém é mais viável nos países desenvolvidos, por terem a actividade musical profissionalizada.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Palanca Negra está ameaçada

Jornal de Angola, 06 de Setembro, 2011
Quatro manadas de palancas negras com 50 animais, incluindo alguns machos territoriais, fêmeas reprodutoras, jovens e crias, foram localizadas  na reserva do Luando, província de Malange, durante uma expedição científica, informou ontem, em Luanda, o coordenador do projecto de conservação da espécie, Pedro Vaz.
Apesar dos resultados,  o coordenador do projecto de conservação da Palanca Negra, do Ministério do Ambiente,  lamentou o facto de se confirmar o desaparecimento deste antílope na maior parte da reserva do Luando, em consequência da guerra civil e da caça furtiva.

“A caça furtiva está muito activa através da utilização de armadilhas de laço. Foram encontradas várias palancas fêmeas com ferimentos graves nas patas, por causa dessas armadilhas, e temos fotos de pelo menos duas dessas fêmeas que devem morrer em breve por causa dos ferimentos”, disse Pedro Vaz
Em declarações à Angop, acrescentou que a caça furtiva nos últimos anos tem impedido a sobrevivência das crias e o seu recrutamento para a manada, uma vez que foram detectados pelos especialistas  vários animais velhos e crias deste ano ainda recém-nascidas, mas com muitos poucos animais jovens, entre dois e sete anos.
Durante a segunda fase de captura da palanca negra gigante que decorreu de 27 de Julho a 20 de Agosto deste ano, foram levados para o santuário de Cangandala oito animais, sendo seis fêmeas jovens e dois machos, com oito e dois anos. Estes animais juntaram-se a outros para reprodução de novas manadas no santuário do Parque Nacional de Cangandala, província de Malange. Segundo o mesmo responsável,  Ministério do Ambiente e parceiros têm  nos seus registos um total de 19 animais, dos quais cinco machos e 14 fêmeas, todos já no santuário criado no parque de Cangandala.
Mesmo assim, Pedro Vaz disse ser ainda preocupante a situação actual da palanca negra gigante,  sendo mesmo um dos mamíferos mais ameaçados de extinção do mundo. “Se não agirmos com firmeza e imediatamente, corremos o risco de ver a palanca desaparecer nos próximos anos”, alertou Pedro Vaz. O número total de palancas sobreviventes é de menos de 100 animais, confirmadas apenas 50 no Luando e 20 em Cangandala. A caça furtiva é a principal ameaça, estando ainda descontrolada na reserva do Luando.
Pedro Vaz firmou que o combate à caça furtiva na zona da palanca tem de ser uma prioridade nacional, abrangente, e não apenas circunscrito aos órgãos tradicionais da tutela, como seja o Ministério do Ambiente, e seus parceiros, nomeadamente, a Universidade Católica e a Fundação Quissama. Disse ainda que a protecção da palanca negra nas duas reservas passa pela acção de agentes de fiscalização no terreno e reforço das campanhas de sensibilização no seio das comunidades, sobretudo aquelas que vivem próximo das suas reservas.
Pedro Vaz sublinhou que neste momento existem apenas alguns pastores, agentes não oficiais, com pouca formação, para proteger as reservas. Sublinhou o empenho das Forças Armadas Angolanas e da Força Aérea que trabalharam satisfatoriamente durante a segunda fase de captura do antílope.

domingo, 4 de setembro de 2011

Mário Pinto de Andrade in memoriam

Jornal de Angola
04.09.11
Se Mário Pinto de Andrade fosse vivo, teria completado no passado dia 31 de Agosto 83 anos. Nascido a 31 de Agosto de 1928, na vila do Golungo Alto, situada numa região do hinterland, cedo veio para Luanda, com dois anos, tendo crescido na Ingombota, em pleno coração de Luanda, ajudado pela madrasta, mãe de Joaquim Pinto de Andrade, outra figura de proa do nacionalismo moderno angolano despoletado no dealbar dos anos 40, 50 e princípios de 60, com o apelo à acção directa através da luta armada.
O pai, Cristino Pinto de Andrade, era antigo funcionário da Fazenda e Contabilidade. O seu progenitor era considerado membro da chamada lumpen-aristocracia sociológica da época. Foi co-fundador da liga Nacional Africana, entre outros, com Gervásio Viana, pai de Gentil Viana e António de Assis Júnior, sendo este último dicionarista da sua língua materna que o interessou no estudo do kimbundu. “O kimbundu era a língua com que eu falava com a madrasta e o criado no quintal”, dizia ele, enquanto o pai censurava tal prática, ambicionando vê-lo subir na vida por via da língua dominante, o português. Preconceitos culturais típicos de uma sociedade colonial!
Oriundo de um estrato social privilegiado, a pequena burguesia africana da época, cuja emergência é assinalável com o “boom” do café, nos finais dos anos 40 e princípios de 50 do século do passado, Mário de Andrade fez os seus estudos primários, secundários e liceais em Luanda, depois de uma crise mística que o levou a frequentar o seminário entre a frequência do ensino preparatório.

Partida para Portugal

Concluído o liceu em 1947-48, com distinção, parte para Portugal. Chegado a Lisboa em 1948, trava conhecimento com o estudante de agronomia Amílcar Cabral, um dos raros africanos que evolui no sistema universitário na metrópole e de ideias mais avançadas. Sendo um leitor omnívoro de ciências sociais, trajado à “dandy”, levado pela mão do seu colega, o futuro engenheiro agrónomo Humberto Machado, irmão de Ilídio Machado, um dos pivots do núcleo duro jacobino do movimento nacionalista que fervilha em Luanda, na segunda metade da década de 50, temos em que a luta nacionalista assume o condão artístico e político, ainda que numa fase de contestação á ordem colonial de forma embrionária, tanto localmente como na diáspora.

Em 1947, surge em Luanda o Ngola Ritmos, liderado pelo maestro e nacionalista Aniceto “Liceu” Vieira Dias, cujas letras das suas músicas fazem apelo à mensagem avassaladora da liberdade, brandindo o martelo contra a ignorância e o medo, denunciando a reedição da escravatura em pleno século XX - o contrato - cantando em kimbundu, clamando a assistência social, sanitária e educacional dos nativos.

O poeta Viriato da Cruz

No ano seguinte, o poeta Viriato da Cruz, conforme é ideia geralmente aceite, lança o Movimento Literário “Vamos Descobrir Angola”, em ordem ao resgate dos “valores nativos destruídos”, para usar uma sua feliz expressão. Viria da Cruz proclama neste seu manifesto cultural e artístico que era preciso resgatar os valores culturais nacionais, inspirados nas tradições seculares, sem sede de exotismos, apoiados na razão e no senso do cultivo das coisas da terra, sem negar a contribuição positiva que vem de fora, questionando também a poética dos seus imediatos predecessores ainda que implicitamente ou mesmo ostensivamente, com base no alumbramento dos cânticos dos modernistas doutra margem do Atlântico, mas, sobretudo, forjado no “serão do menino”, educado na espiritualidade do vasto filão da tradição oral.
Em 1949, é publicada em Paris “L’Antologie de la Poesie Noire et Malgaxe”, de Lelopold Sedar Senghor, na senda dos valores de reafirmação da identidade africana, que plasmada desde os anos 20,30 e 40, em diversas publicações animadas pelos estudantes africanos e da Martinica, evoluindo na capital francesa, nomeadamente o carderno “L’etudiant noir”. David Diop clamava “Deixai a África para os Africanos”, ainda em 1919. São correntes propulsoras do nacionalismo panafricano que se batem pela valorização das massas africanas humilhadas até ao tutano e esbulhadas das suas propriedades agrícolas férteis, com os seus descendentes marginalizados na Europa e na América, sonhando com o retorno às origens.
A geração de Mário de Andrade vive o impacto destas e outras leituras em ordem à emancipação do homem explorado e deserdado da terra, aliás uma das divisas que vai marcar o movimento cultural por si desencadeado com os seus companheiros estudantes e intelectuais africanos, vivendo e estudando em plena cidadela do império, em Lisboa, onde vão fundar o Centro de Estudos Africanos, em Outubro de 1951.

“Reafricanização dos espíritos”

Esta acção marca a ruptura com a alienação mental promovida pelo assimilacionismo colonial, através de uma vasto processo de “Reafricanização dos Espíritos”, com vista à recuperação das suas raízes culturais e à consciencialização das realidades sociológicas e antropológicas dos seus países de origem, campanha simbolizada com um funge ao sábado, além dos acalorados debates longe do jango que ficou na terra-mãe, suscitados pelo palestrante do dia, seminários entremeados com a declamação da poesia de sua lavra geracional.
As actividades deste centro foram abertas com uma conferência proferida pelo poeta e geógrafo santomense Francisco José Vasquez Tenreiro, o primeiro poeta “negritudiano” à escala das cinco colónias portuguesas, com o poemário “Ilha de Nome Santo”, publicado em Lisboa, em 1941, seguidos de diversos ensaios e artigos sobre o valor social, económico e artístico dos seus irmãos de raça em África e nas Américas, na imprensa portuguesa da época, nomeadamente de 1945 a 50, na revista “Seara Nova”.
O Centro de Estudos Africanos era composto por Mário Pinto de Andrade, Francisco José Tenreiro, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa, entre outros.

“Expressão Kimbundu”

Os temas apresentados eram seguidos de debate. Mário Pinto de Andrade ocupou-se da Linguística Africana. Aliás, Mário de Andrade animou uma palestra sobre “Expressão Kimbundu”, em Lisboa, em Abril de 1952, no âmbito da reafirmação deste projecto cultural de matriz identitária que “só se pode afirmar num quadro histórico de liberdade”, segundo diria em 1984, em entrevista à “Gazeta de Artes e Letras” da então concorrida revista moçambicana “Tempo”.
Perseguido pela PIDE devido à sua a denodada acção subversiva à ordem cultural e social instaurada, Mário Pinto de Andrade foge para Paris, indo parar ao quadro de Marcelino dos Santos que se havia se exilado um pouco antes. Levado pela mão deste seu correligionário íntimo, vai trabalhar na “Présence Africaine”, capitaneada pelo intelectual senegalês Allioune Diop, que se dedicava à divulgação das realidades políticas, sociais e culturais africanas e de todo o mundo negro, onde assume as funções de secretário de redacção e, depois, de chefe de redacção.
Nesta qualidade de redactor da revista publica diversos artigos analíticos e ensaios, onde desmonta a estrutura sociológica do colonialismo português, nomeadamente a tese lusotropicalista de Gilberto Freyre, bem com dos seus principais corifeus do “bom patrão que aperta a mão do escravo”, nomeadamente Adriano Moreira e Marcelo Caetano.
Nos anos seguintes mantém a sua acção publicista e cultural. A partir daí participa na organização do primeiro e segundo congressos de Escritores e Artistas Negros, organizados pela “Présence Africaine” em Paris, 1956, e em Roma, 1959. Nestes congressos foi notória a ausência do poeta Agostinho Neto, que se encontrava preso em Portugal por razões políticas.

Antologia de poesia

Além em de Mário Pinto de Andrade, entre os escritores e intelectuais angolanos, no primeiro congresso estiveram o reverendo Joaquim Pinto de Andrade e o estudante de direito Manuel Lima, colaborador do jornal “Cultura”. Entre estes dois congressos Mário Pinto de Andrade publica a “Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa”, onde reitera igualmente os argumentos esgrimidos na “Présence Africaine” contestando a ordem cultural colonial e exaltando a expressão cultural, literária e plástica dos colonizados das cinco colónias portuguesas, cujo pano de fundo cultural africano é distinto de Portugal, por sinal, o último império colonial varrido da face de África em 1975, e que se gabava extensivo de Minho a Timor.
Tempos de radicalização da vaga nacionalista em África, o movimento independentista cerra fileiras no Gana, Argélia, Camarões e na Guiné-Conakry. Mário Pinto de Andrade anuncia a passagem à “acção directa”, através da Luta Armada de Libertação Nacional, em Dezembro de 1960, o ano das independências em África.
As armas estão acesas nas mãos dos poetas, feitos líderes políticos pela emancipação dos seus povos. O evoluir da conjuntura de então exige outros métodos de acção mais vigorosos e de luta mais audazes: as catanas substituem o verbo dos que profetizaram a mensagem redentora do sol da dignificação do nativo e do rompimento das grilhetas da dominação colonial.
No fundo, estava escrita implacavelmente a crónica anunciada do despertar africano e a premonição pela entoação dos hinos à liberdade, na hora do regresso ao país natal, como cantava Aimé Cesaire, um dos seus principais inspiradores na assumpção da causa africana.
“O meu nacionalismo não é estreito, disse o intelectual emprestado à política, é alargado ao espaço dos cinco países africanos de língua oficial portuguesa”.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Casos de malária reduzem em Angola

02-09-2011 11:07
Saúde
Casos de malária reduzem em Angola


Yamoussoukro (Do enviado especial) – Angola registou três milhões, 687 mil e 574 casos suspeitos de malária em 2010, contra três milhões 726 mil 606 observados em 2009, continuando a ser a principal causa de doença e morte. 

Em entrevista à Angop, em Yamoussoukro, Côte d’Ivoire, Filomeno Fortes, director do Programa Nacional de Controlo da Malária em Angola, disse que as províncias de Luanda, Huambo, Huíla, Bié, Benguela, Kwanza Sul e Cabinda concentram 72 porcento de todos os casos suspeitos. 

 
Acrescentou que nos últimos cinco anos, com a intensificação das acções de controlo, o número de óbitos tem reduzido de forma apreciável, tendo sido registados oito mil 114 óbitos em 2010 contra dez mil e 505 observados em 2009, correspondendo a uma redução de 23 porcento. 

Com a implementação do tratamento preventivo nas grávidas, com sulfadoxina+pirimetamina, a partir do quarto mês de gravidez, nas consultas pré-natal, verificou-se uma redução de mortalidade materna de 15 porcento para dois porcento nos últimos cinco anos. 

 Segundo a fonte, as principais intervenções de controlo da malária em Angola assentam no diagnóstico e tratamento correcto dos casos, nas medidas preventivas, sobretudo na distribuição de redes mosquiteiras tratadas com insecticida, na luta contra o vector e na educação para a saúde. 

De acordo com Filomeno Fortes, o uso dos testes rápidos têm contribuído para a melhoria do diagnóstico em todos os municípios, bem como a prescrição do Coartem tem reduzido o aparecimento de casos graves. 
 
Os principais parceiros no combate à malária em Angola têm sido a Iniciativa Presidencial Americana e o Fundo Mundial. 
 
Apesar de todo este esforço, o Programa Nacional carece de mais meios em redes mosquiteiras, testes rápidos e de luta antivectorial
(pulverização interna de residências com insecticida de efeito residual), para poder atingir as metas de cobertura universal preconizada nos objectivos de desenvolvimento do milénio.