terça-feira, 4 de outubro de 2011

“UMA PÁGINA DA HISTÓRIA DE ANGOLA “


Jaime de Sousa Araújo

Foi nas terras do Cazengo que se forjou a conspiração vergonhosa dos colonos residentes, contra atenta pacífica postura dos naturais de Angola acoimada de “Revolta de Mata Brancos “ .

Estranhamente, de há muito que Portugal sentia a perda das suas colónias africanas, sobretudo no período que antecedeu à independência do Brasil

Os residentes europeus do Kwanza – Norte receavam a afirmação sócio – económica de uma élite de negros e mestiços que reflectiam sobre uma possível auto-determinação do território que desde a expulsão dos Holandeses pelo Almirante Salvador Correia de Sá e Benevides, grande parte dos quadros da Administração Colonial era ocupado por varões brasileiros treinados no negócio de escravos e Importação e Bens procedentes do Brasil.

Desde as últimas décadas do século XIX nos primórdios do século XX várias armadilhas foram urdidas para delimitar a capacidade de intervenção intelectual e económica dos naturais, que souberam sempre defender com brio seus interesses dando resposta adequada aos insolentes que procurassem denegrir a honra dos naturais.

Tanto assim, que no princípio do século XX um grupo de colonos maldosos desferiu ataque aos naturais da terra, através de um “ pasquim periódico de Luanda com título “ “contra grei pela grei “ achando que os nativos não merecem tratamento igual no julgamento das suas faltas ou infracções judiciais. A resposta de uma pléade de intelectuias não se fez tardar em forma de resposta acutilante nos jornais da sua propriedade editados em Luanda.

Em reforço aos insultos editaram um livro sob o título “ Voz de Angola clamando no deserto “ em 1902 com depoimentos e apoio de figuras portuguesas que igualmente responderam a leivosia dos colonos.

Contudo, o diabo tece as maldições armando “ tocaisos “ congeminadas por colonos ávidos de assumirem a posse de bens, imobiliários e terrenos férteis para agricultura.

Assim é que se denuncia a falsa conspiração, quando antes se deram outras revoltas acoimadas de “ mata brancos “, como a do Congo liderada pelo Dom Álvaro Tulante Buta, apoiada por missionários estrangeiros pela ocupação das terras do Congo e pagamento compulsivo “ imposto de cabeça “, dando lugar a deportações em massa em São Tomé e Príncipe, e posteriormente as insurreições em cadeia dos Dembos, Mussende, Ambaca, Amboim – Seles, Libolo, Bailundo e Cunene num período permanente de 20 anos.

Tem convulsões de desapontamentos a repressão colonial permitiu que o Governador Geral Norton de Matos extinguisse por despacho de 1913 Liga Angolana, deportando dentro do país os fundadores:

Manuel Pereira dos Santos Van – Dúnem, José Vieira Dias, António Ferreira de Lacerda e outros.

Acusava então, Norton de Matos as Associações Africanas da época como fulcro das revoltas espalhadas pelo território, permitindo que a sanha revoltosa dos colonos tratasse a Liga por uma “ Associação de Mata Brancos “.

Estávamos no mês de Julho, como agora, quando é forjada a conspiração de colonos do Cazengo contra os naturais da terra servindo de rastilho o intriguismo de joão Baptista de Sá, gerente da Companinha Comercial do Cazengo, por rivalidades comerciais e acusação de ter sido autor de desvio de certa mercadoria dos armazéns do Caminho – de – Ferro no Lucala, segundo o comerciante Manuel Moreira.

As autoridades administrativas trataram de proceder a prisões em massa, envolvendo figuras mais proeminentes da região com destaque para:

      - António Assis Júnior
      - Domingos Van – Dúnem
      - António Joaquim de Miranda, relevante activista da educação dos aborígenes.
      - Paulo Alves da Cunha
      - Fernando Correia Cabral
      - Adriano dos Santos
      - Sérgio José da Silva
      - Manuel Augusto dos Santos
      - Pedro Mendes Duarte
      - Manuel Correia Víctor
      - Filipe de Sá Mello
      - António Faustino
      - José Feliciano Vicente
      - Francisco Jerónimo
      - Francisco Bartolomeu
      - Joaquim Fortuna
      - Félix Adriano
      - Alberto Mateus
      - Francisco Gonçalves
      - Augusto Aleixo da Palma
      - António Luís Da Silva e outros.

As vítimas acima referidas, com destaque para o escritor António Assis Júnior e o chefe da estação do Cazengo, Domingos Van – Dúnem, enclausurados nas masmorras da Fortaleza de São – Miguel de Luanda a partir de Agosto de 1917.

O efeito repressivo das autoridades colónias produziu reacções em cadeia traduzidas pelas revoltas já referidas.

A cabala foi tão bem urdida pelos colonos do Cazengo aliados às autoridades que acabou por envolver o testemunho de vários representantes da terra em recurso interposto por António Assis Júnior nas masmorras da Fortaleza de São Miguel, tendo entre outros prestado declarações figuras respeitadas como:

- O Administrador de circuscrição Antunes Ferreira,
-  O Delegado de Saúde Dr. Augusto de Brito e Nascimento,
José de Sá Vasconcelos Júnior,
- Lucrécio Africano de Carvalho,
-  Carlos Giovetti,
-  Adolfo Correia,
-  Estêvão Fernandes,
-  Casimiro Pereira Bravo,
Alonso de Soto Veiga,
-  Eusébio Rodrigo da Costa
- Adriano dos Santos

De tudo quanto terão a paciência de escutar, assalta–me ao pensamento que as convulsões aqui transmitidas em forma de história tiveram efeitos positivos na tomada de posição dos direitos e liberdades, então restringidos aos naturais da nossa terra.

Contudo, as lições dos nossos antepassados serviram de incentivo à luta de libertação que culminou na independência de que disfrutamos.

Jaime de Sousa Araújo
Liga Africana




































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